EU QUE FIZ

Muito Além do Cidadão Kane

Posted on: 14/04/2009

 

RESENHA

 

HARTOG, Simon “Brasil: Muito Além do Cidadão Kane”. Londres-Inglaterra: BBC, 2003.

 

 

Art. 5° – A obstrução direta ou indireta à livre divulgação da informação e a aplicação de censura ou autocensura são um delito contra a sociedade.(Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros) 

 

Raoul Simon Hartog nasceu na Inglaterrra em 8 de fevereiro de 1940, foi para Chicago a partir dos oito anos, após o divorcio dos seus pais. Estudou cinema no Centro de tomada de Sperimentale (o filme italiano escola em Roma), onde conheceu sua companheira Antonella Ibba. Foi uma figura ímpar no que diz respeito à cultura cinematográfica britânica e teve um sério interesse acadêmico nas estruturas políticas e econômicas da indústria cinematográfica. Seu último filme, produzido durante uma pausa na sua batalha contra a leucemia, e editado a partir de seu leito hospitalar, é uma devastadora exposição do papel que a TV Globo desempenha no apoio a um governo corrupto no Brasil, infelizmente ele não viveu para ver a estréia, pois, morreu em Londres no dia 18 de Agosto de 1992.

Cidadão Kaine 

O título do documentário faz uma referência à personagem de Orson Willes no filme “Cidadão Kane”, que é uma menção ao mega empresário das comunicações nos Estados Unidos William Randolph Hearst.

O vídeo mostra o preocupante acúmulo de poder nas mãos de empresários da imprensa no Brasil, assim como a supremacia da rede Globo, que usa de falcatruas para se manter no poder. Descobrimos que Roberto Marinho nunca se opôs ao governo, assim podia manter sua concessão e continuar manipulando a imprensa. Ele apoiou o regime militar da ditadura; ocultou fatos importantes da história brasileira, como as manifestações pelas “Diretas já”; exibiu edições tendenciosas de debates (Lula e Collor) , falsos resultados em pesquisas de preferências,  feitas pelo IBOPE, e acima de tudo, demonstrou que a ética não foi um dos métodos usados para chegar aonde chegou.

Globo X Ditadura

A Globo não transmitia notícias que perturbassem a ordem do país, um exemplo é o depoimento do ex-presidente Médici quando afirmou que assistir a TV Globo era como um calmante depois de um dia de trabalho. Isso nos “anos de chumbo” da ditadura, quando o que não faltava eram torturas e desaparecimentos. Com a ajuda da Rede Globo essas pessoas eram ignoradas e os fatos ocultados.

Dificuldades no Brasil

Ele é rico em entrevistas, expõe a opinião de personalidades distintas como o cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda, os políticos Leonel Brizola e Antônio Carlos Magalhães, o publicitário Washington Olivetto, os jornalistas Walter Clark, Armando Nogueira, Gabriel Priolli e o atual presidente Luis Inácio Lula da Silva. Mas ainda assim teve sua exibição proibida no Basil devido a uma liminar cedida a Globo.

 A estréia em 1994 foi frustrada e por isso  a exibição era feita clandestinamente nas faculdades. Em 1995, a Globo tentou caçar as cópias disponíveis nos arquivos da Universidade de São Paulo através da Justiça Brasileira, mas o pedido foi negado, porém o acesso ao vídeo ficou restrito a essas pessoas e só se tornou amplamente visto a partir da década de 2000, graças à popularização da internet.

Desde a primeira República no Brasil que “calar a boca da imprensa” com suborno é prática conhecida pelos políticos. Rui Barbosa foi quem denunciou o primeiro presidente brasileiro, Marechal Deodoro da Fonseca, por utilizar o Banco do Brasil para calar uma redação que faria denúncias de fatos sórdidos, prática que continuou com o passar dos anos, sendo o Banco do Brasil pressionado pelos governantes para fazer grandes empréstimos que jamais foram pagos, um dos jornalistas influentes que se beneficiaram com eles foi Assis de Chateaubriand, nos anos 50. A nossa história com a prática de subornos e falta do bom caráter na imprensa e na política são quase tão antigos quanto a chegada dos portugueses por aqui.

Relevância

O documentário esclarece vários pontos na participação da Rede Globo na história do nosso país, abre nossos olhos para fatos que talvez já tivessem passado desapercebidos, como o apoio dado à ditadura. Mesmo diante da censura na época, essa rede de televisão poderia ter feito muito mais pelos cidadãos. Não foi a repressão que impediu isso e sim a ambição do Senhor Roberto Marinho que não via limites e nem obstáculos éticos. São reflexões tristes, porém necessárias, assim nos tornamos mais conscientes do nosso papel de jornalistas, e acima de tudo cidadãos com direitos de consumidores, pois, se mais nada inspira uma atitude ética de nossa parte, que seja o fato de que também consumimos do produto que vendemos.

 

http://www.youtube.com/watch?v=iagQB4YEkjk

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6 Respostas to "Muito Além do Cidadão Kane"

Agora a Globo se pronunciou dizendo ter se arrependido de apoiar a ditadura. Esse documentário mostra que o problema é bem maior… Tem uma crítica em:
http://www.artigosdecinema.blogspot.com/2013/09/muito-alem-do-cidadao-kane-beyond.html

seu resumo me ajudou na atividade valendo ponto para geografia.

Parabéns pela resenha, muito bem feita e elabora! Me ajudou demais. Só acho um absurdo que a maioria dos brasileiros não tenha conhecimento de conteúdos como esse e enquanto esse quadro de acomodação das pessoas que só absorvem o que lhes é passado muita coisa se manterá igual.

Parabéns mesmo, ótimo texto.

Muito interessante a abordagem feita… Foi-me de grande utilidade!

Parabéns!

Adoreei

vc adorou o que nem sabe o que é certo e o que é errado……………………….bjos amorzinho

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