Publicado por: celiamota em: 11/10/2010
Quem viu o filme do diretor Otto Preminger, que data de 1967 e trata da discriminação dos negros pós-Segunda Guerra Mundial, sabe que, passadas várias décadas, o assunto “racismo” continua em pauta.
Ainda há preconceito e racismo, porém dissimulado, silencioso e disfarçado. Até bem pouco tempo, quando procurávamos por emprego nos classificados dos jornais, principalmente no sul e sudeste do Brasil, algumas das vagas oferecidas trazia a seguinte observação: “Exige-se ‘boa aparência’”, que também poderia ser dito dessa forma: “Vagas somente para brancos.” Não sei contar quantas vezes que, durante a entrevista de emprego, antes de “Boa sorte”, os entrevistadores falaram a respeito da grande vantagem que eu tinha sobre as outras candidatas apenas pelo fato de ser branca.
Aqui mesmo, em Salvador, onde há a maior população negra do País, existe uma discriminação explícita na maneira de agir das pessoas, inclusive da mesma etnia. Ouvi relato de uma amiga que disse ter sido discriminada em uma loja de certo shopping quando foi, acompanhada do namorado estrangeiro e branco, escolher uma peça de roupa feminina, que seria seu presente de aniversário. O que se pensa de uma negra em atitude afetiva com estrangeiro branco em loja voltada para a classe A? Aqui em Salvador a ideia inicial é que se trata de “prostituta especialista em pegar gringo”. E assim elas são tratadas com o maior desrespeito possível.
Em outras situações são confundidos com os garçons, quando em restaurantes “finos”, ou com os empregados, em condomínios de luxo, sendo sugerido que entrem no elevador de serviço. Assustador? Sim, mas perfeitamente possível, e acontece mesmo em uma sociedade que se diz contra o racismo. Mas essa mesma sociedade ainda não evoluiu e se deixa influenciar pela ignorância retrógrada das ideias enraizadas em nossa cultura desde os primórdios.
Devemos abrir os olhos, observar o mundo ao nosso redor, e fazer algo de realmente relevante em prol da mudança nessa realidade que se apresenta. A herança que estamos deixando não é, nem de longe, comparável a qualquer riqueza. É esse país impregnado de pobreza de espírito, de matéria e de intelectualidade que estamos deixando para os que virão. E isso já está sendo arraigado na educação dos nossos filhos e netos.
Vivemos na sociedade da hipocrisia e cabe somente a nós a atitude de mudar. Assim, quem sabe um dia o Brasil se torne o lar que sempre sonhamos. Quem sabe se começarmos agora nossos tataranetos possam perceber a mudança? Mas tem que ser já.