Diário acadêmico

Resumo do texto de Marília Gouvea de Miranda & Anita C. Azevedo Resende

O conceito de pesquisa-ação abre discussões acerca da relação entre teoria e prática, um impasse enfrentado por pesquisadores da educação.

Qual a importância da pesquisa-ação para a investigação em educação?

A pesquisa – ação incorpora a ação como sua dimensão constitutiva, ou seja, articula a relação entre teoria e prática no processo de construção do conhecimento. O próprio pesquisador em educação deixa evidente a relevância da prática em seu processo de investigação, pois possibilita uma atuação efetiva sobre a realidade estudada.

Sobre conhecimento e intervenção social

A conformação da ciência como único conhecimento possível, e de seu método como único válido, implicaria que o recurso à causa ou princípios que não fossem acessíveis a esse método não daria origem ao conhecer. E qualquer conhecimento que não recorresse a tal método também não teria valor. Nessa perspectiva o método da ciência constituiu-se descritivo, no sentido de que os fatos e as suas relações constantes foram compreendidos pelas leis que consentiam na sua previsão. Assim, a “verdade” havia de ser garantida, mais pela forma como era obtida, pelos procedimentos e instrumentos, do que pelo conteúdo que pudesse revelar.

A verdade do objeto

A verdade do objeto estava assegurada pela fiel e comprovada apreensão empírica, pela possibilidade de repetição, refutação e experimentação, descrição do objeto em sua representação, forma de manifestação imediata ou aparência. Qualquer sujeito poderia comprovar a sua verdade, desde que garantidos os mesmo procedimentos e regras de conhecer. Dessa forma, o conhecimento postulou-se objetivo e neutro.

A neutralidade

A neutralidade ante a objetividade efetivou-se como conservação e afirmação da realidade mesma, revelando-se pseudopretensão, porque efetivada historicamente como conservação, manutenção, funcionalidade e controle. Diante dos desafios que se colocavam no mundo, que se revolucionava já no século XIX, avançando para o século XX, tendências e vertentes nas ciências humanas e sociais buscaram libertar-se da epistemologia das ciências naturais.

As ciências humanas surgem como uma nova forma de pesquisa

A compreensão desse mundo complexo elaborou propostas distintas para o conhecimento da realidade. De um lado, traduzidos para o campo da sociedade, da cultura e do indivíduo os procedimentos que já haviam sido elaborados e continuavam a elaborar-se nas ciências físicas e naturais; de outro, produziam-se novos procedimentos de reflexão ante a originalidade dos dilemas e acontecimentos que caracterizam a vida social e o indivíduo no mundo moderno. Institucionalizadas nesse quadro, as ciências humanas e sociais desenvolveram-se sobremaneira a partir da virada do século XX, enfrentando, sem resolver, as questões fundamentais da relação entre sujeito e objeto, teoria e prática. Os cientistas sociais voltavam-se para uma abordagem compreensiva: em lugar da “causação” funcional, a conexão de sentido, a compreensão, o mundo da vida, as ações e relações sociais, o indivíduo, a identidade, a alteridade, a subjetividade, os valores, as ideias, as fabulações.

Desafios da investigação qualitativa

Trata-se de assumir a unidade originária da relação entre sujeito e objeto, a investigação científica devendo aceitar o desafio de um objeto que não se revela pela descrição de sua manifestação, mas somente pela apreensão e compreensão da diversidade de seus nexos, processos e estruturas de diferentes ordens. É um objeto que se põe como desafio, seja ele o indivíduo, a sociedade, o grupo, a classe, o movimento social, a escola, o ser humano na sua intrincada e contraditória realidade individual e histórica.

Diferença entre ciências naturais e ciências sociais

As ciências naturais realizam principalmente a explicação, ao passo que as ciências sociais propiciam, principalmente, a compreensão, reconhecendo-se que a teoria e a prática constituem-se reciprocamente, porque a objetividade histórica e não natural é, antes, produto de objetivações humanas.

Pesquisa – ação e prática social

À pesquisa – ação são atribuídas leituras que adotam uma perspectiva mais explicativa (experimental) ou mais compreensiva (fenomenológica ou dialética). Sob o ponto de vista de René Barbier (2002)

• Descreve a pesquisa – ação como “uma revolução epistemológica ainda não suficientemente explorada nas ciências humanas.”

• Visa mudança pela transformação recíproca da ação e do discurso.

• Recorre à teoria de complexidade de Edgar Morin para contrapor-se ao “ideal de simplicidade” das ciências da natureza.

• Só o paradigma da complexidade poderia apreender o ser humano, entendido como uma “totalidade dinâmica, biológica, psicológica, social, cultural, cósmica, indissociável”.

• Esse paradigma impõe ao pesquisador uma visão sistêmica aberta  – combinar as ações ( organização, informação, energia, retroação, as fontes, os produtos e os fluxos do sistema) sem fechar-se numa clausura para onde leva, geralmente, o espírito teórico.

Carr e Kemmis (1988) defendem que a teoria educativa deve corresponder a cinco exigências:

a) Rejeitar as noções positivistas de racionalidade, objetividade e verdade;

b) Admitir a possibilidade de utilizar as categorias interpretativas dos docentes;

c) Encontrar meios para distinguir as interpretações que estão ideologicamente distorcidas das que não estão. Devendo proporcionar orientação sobre como superar os auto – entendimentos distorcidos;

d) Preocupar-se em identificar aspectos da ordem social existente que frustram a obtenção dos fins racionais;

e) Reconhecer que a teoria educativa é prática, no sentido de que a questão de sua consideração educacional seja determinada pelo modo que se relaciona com a prática.

Destacam-se ainda a teoria da complexidade, de Morin (trazida por Barbier) e a teoria da ação comunicativa de Habermas (apresentada por Carr e Kemmis) que convergem da seguinte forma:

 a) os autores são bastante incisivos na crítica ao positivismo nas ciências sociais;

b) recorrem às abordagens compreensivas para extrair delas as possibilidades dos sujeitos e dar significado a realidades vividas mediante categorias interpretativas;

c) vinculam a noção de pesquisa à ideia de mudança, de transformação dos atores e sua realidade;

d) investigam o conceito de pesquisa junto à ação – prática, com a resolução dos saberes entre nas ciências humanas e sociais dando – se no campo da prática e da ação social;

e) postulam uma noção de totalidade referida à prática abrangendo a ação e a experiência do sujeito.

f) A pesquisa – ação, mais do que uma abordagem metodológica, é um posicionamento diante de questões epistemológicas fundamentais como a relação entre sujeito e objeto, teoria e prática, reforma e transformação social.

O praticismo e seus riscos

A pesquisa – ação se posiciona como crítica ao objetivismo estéril, próprio do positivismo. É na perspectiva compreensiva, que busca uma compreensão da relação entre sujeito e objeto nas ciências humanas e sociais.

De acordo com Adorno ( apud Miranda & Rezende, 2006), a separação entre sujeito e objeto se torna ideologia sempre que for fixada sem mediação. Por isso deve-se evitar a armadilha de, ao se contrapor ao primado da objetividade, resvalar no subjetivismo.

A pesquisa – ação critica a noção de uma teoria contemplativa e abstrata, pois de acordo com a afirmação de Marx, não se trata apenas de compreender o mundo, mas de buscar transforma – lo – tal ideia deve ser entendida na perspectiva das mediações construtivas das relações postas entre o sujeito e o objeto, teoria e prática.

É importante discutir a tendência de estabelecer o primado da ação sobre a reflexão, que resultam em dois graves reducionismos: o praticismo e a instrumentalização da teoria – mesmo sendo sempre vinculada à prática, teoria não é prática, não se reduz a esta e não pode se orientar imediatamente pelo seu interesse; a defesa do praticismo alimenta a retórica reformista da educação e seus efeitos podem ser notados nas diversas expressões de repúdio à teoria e a cultura acadêmica.

Considera-se que a boa pesquisa, a boa prática e a boa teoria seriam aquelas que presidiriam a efetiva solução dos problemas enfrentados individual ou coletivamente pelo professor. Deve-se insistir no risco de fazer com que a pesquisa – ação seja convertida em estratégia de políticas públicas com a finalidade de imprimir reformas no campo da retórica e da ação do professor, quando, então, a sua discussão epistemológica e intelectual se transfere para normalizações instituidoras da prática docente.

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Resumo do texto de Rocha & Eckebert (2008)

A Etnografia é um método de estudos específico da pesquisa antropológica, composto de técnicas e procedimentos de coleta de dados associados a uma prática do trabalho de campo à partir de uma convivência mais ou menos prolongada do pesquisador junto ao grupo social a ser estudado.

Esclarecimentos

  • Tal prática responde a uma demanda científica de produção de dados de conhecimento antropológico à partir de uma inter – relação entre o pesquisador e os sujeitos pesquisados, junto ao grupo social a ser estudado.
  • O método é adaptado para outros campos de pesquisa que não o antropológico, adotando técnicas próprias da etnografia como a observação e as entrevistas.
  • Tal método consiste em um exercício constante do olhar e do ouvir – impõe ao pesquisador um deslocamento de sua própria cultura para se situar no interior do fenômeno por ele observado.
  • É participação efetiva nas formas de sociabilidade por meio das quais a sociedade se lhe apresenta.
  • Não é usual este projeto contemplar hipóteses iniciais de pesquisa – estas emergem na medida em que a investigação avança com a aproximação do universo a ser pesquisado.

Observação direta

  • É se engajar em uma experiência de percepção de contrastes sociais, culturais e históricos.
  • Após a elaboração de um projeto com tema pertinente, a primeira atitude do jovem cientista é aproximar-se das pessoas, dos grupos ou da instituição a ser estudada a fim de conquistar a concordância de sua presença para observação sistemática das práticas sociais.
  • A interação é a condição da pesquisa.
  • A pesquisa etnográfica se constitui como uma forma de pesquisar, na vida social:
  • os valores éticos e morais;
  • os códigos de emoções;
  • as interações e as motivações que orientam a conformação de uma determinada sociedade.
  • O antropólogo não pode se transformar em nativo, tanto quanto não pode aderir irrestritamente aos valores de sua própria cultura para interpretar e descrever uma cultura diferente – isso consiste no etnocentrismo.
  • Sob a pena de não mais ter condições epistemológicas necessárias à produção da etnografia.

O trabalho de conhecer

  • A pesquisa de campo etnográfico consiste em estudarmos o outro.
  • A observação é a aprendizagem de olhar o outro para conhecê-lo e, ao fazermos isso, também buscamos nos conhecer melhor.
  • A descoberta sobre o outro é uma relação dialética que implica em uma sistemática reciprocidade cognitiva entre o pesquisador e os sujeitos pesquisados.
  • Deve-se estar atento as regularidades e variações de práticas e atitudes – conhecer as diversidades e singularidades dos fenômenos sociais para além das suas formas institucionais e definições oficializadas por discursos legitimados por estruturas de poder.
  • A etnografia se estreia com a negociação do antropólogo com indivíduos e/ou grupos que pretende estudar, transformando-os em parceiros de seus projetos de investigação.
  • Compartilhando com eles e com elas suas intenções de pesquisa.
  • Algumas vezes o antropólogo é iniciado em sua pesquisa de campo por um dos membros do grupo que investiga, este é denominado “interlocutor principal”.

A escuta atenta

  • A comunicação se densifica com a aprendizagem da língua do nativo para a compreensão de suas falas quando necessário, com o reconhecimento dos sotaques ou das gírias.
  • Com a aprendizagem dos gestos, das performances e das etiquetas próprias ao grupo, que revelam suas orientações simbólicas e traduzem seus sistemas de valores para pensar o mundo.
  • Registrar o dia a dia, do que se ouve e do que se vê.
  • Isso significa estar junto nas situações ordinárias vividas como possibilidade interpretativa dos ditos e não ditos que se constituem como parte fundamental das aprendizagens de seu métier.
  • A prática etnográfica permite interpretar o mundo social aproximando-se o pesquisador do Outro “estranho”, tornando-o “familiar” ou o procedimento inverso, estranhando o familiar, superando o pesquisador suas representações ingênuas, agora substituídas por questões relacionais sobre o universo de pesquisa analisado.

 

Observações: o texto ainda aborda a trajetória da antropologia como campo de ideias disciplinares; como aprender etnografia lendo etnografia; a vigilância epistemológica; a tendência monográfica; e a relação entre a etnografia e as novas tecnologias.

pesquisa-qualitativa-a-enfoques-epistemologicos-e-metodologicos-jean-pierre-deslauriers-8532636810_300x300-pu6e768f41_1Resumo do texto de Jean Poupart

  • De acordo com Palmer (1928) – A possibilidade de interrogar os atores e utilizá-los enquanto recurso para a compreensão das realidades sociais constitui em uma das grandes vantagens das ciências sociais sobre as ciências da natureza;
  • Chamboredon e Passeron (1968) defendem o contrário: a maldição das ciências do homem é de ter relação com um objeto que fala, pois o risco é grande de ver as ciências confundirem as interpretações que os atores dão da realidade com a realidade tal e qual;

Os argumentos de ordem epistemológica, ético – política e metodológica como base do recurso a entrevista do tipo qualitativo

  • Três tipos de argumentos se destacam das justificativas para se recorrer à pesquisa do tipo qualitativo, são eles:

1º – de ordem epistemológica – a entrevista de tipo qualitativo seria necessária, uma vez que uma exploração em profundidade da perspectiva dos atores sociais é considerada indispensável para uma exata apreensão e compreensão das condutas sociais;

2º – de ordem ética e política – a entrevista do tipo qualitativo parece necessária porque abriria a possibilidade de compreender e conhecer internamente os dilemas e questões enfrentados pelos atores sociais;

3º – de ordem metodológica – a entrevista de tipo qualitativo se imporia entre as “ferramentas de informação” capazes de elucidar as realidades sociais, mas, principalmente como instrumento privilegiado de acesso às experiências dos atores.

A análise das realidades sociais segundo a perspectiva dos atores

Argumento epistemológico:

  • O recursos às entrevistas continua sendo um dos melhores meios para se aprender os sentidos que os atores dão a sua conduta – os comportamentos não falam por si mesmos:
  • A maneira como eles se representam no mundo e como vivem sua situação
  • Os atores são vistos como aqueles em melhor posição para falar disso.
  • Das questões entre os pontos de vista dos atores e suas condutas:
  • Um dos temas do debate gira em torno da questão de saber se os pontos de vista dos atores são unicamente coisas a descrever e a explicar, sem relação de causalidade direta com suas próprias condutas.
  • O debate sobre as perspectivas subjetivistas e objetivistas nas ciências sociais é real, mesmo que exista uma forte tendência de dizer que seria preciso unir essas perspectivas, o que impediria de criar falsas dicotomias.
  • Controvérsia epistemológica acerca do saber: qual reconhecimento atribuir ao saber leigo, em relação ao saber científico?

 

  • Tal questão surgiu desde que se coletam depoimentos – por meio destes, os atores fornecem interpretações de sua experiência e do universo que os cerca.
  • Além disso, os atores fornecem suas próprias interpretações – deixando o pesquisador diante de várias interpretações de uma mesma realidade, pois cada pessoa do grupo é capaz de dar sentidos diferentes aos acontecimentos.
  • Quais critérios devem ser utilizados para que uma versão se sobreponha às outras?

Três posições distintas se destacam à esse respeito:

1ª – Corrente pós-positivismo – as interpretações que os atores sociais dão de sua própria realidade não devem ser confundidas com a realidade tal e qual ela é;

  • Nesse sentido, o conhecimento científico é superior às explicações originárias dos atores;
  • É resultado de um esforço sistemático do pesquisador para romper com os pressupostos do senso comum e com aqueles da ciência estabelecida;
  • É também um esforço para elaborar interpretações que se baseiam em construções teóricas submetidas não apenas à crítica, mas igualmente à prova da verificação empírica.
  • na concepção construtivista o informante age como um intérprete, apresentando diferentes reconstruções parciais e parcelares da realidade, enquanto o pesquisador também procede à sua própria reconstrução da maneira pela qual os primeiros reconstroem a realidade.

2ª Pós-estruturalistas – são contrários à posição pós-positivista

Argumentos de Clought (1992):

  • A diferença entre a credibilidade da versão dada pelos cientistas sobre o mundo das pessoas pesquisadas e a versão das pessoas pesquisadas é o fato de que os cientistas tem mais chance de se opor incontestavelmente devido à posição privilegiada que ocupam e não à superioridade de seu saber.
  • Na concepção pós-estruturalista o informante e, na sequência, o pesquisador, são vistos como novidadeiros que, dando às informações a aparência de um relato realista, criariam e moldariam a realidade, assim como no cinema e na literatura.

3ª – Similar ao pós-modernismo – as convicções do pesquisador influem em suas atitudes em relação aos grupos pesquisados, o que reflete na maneira como são produzidos os dados.

  • O entrevistado é visto como um informante-chave, capaz precisamente de “informar” não só sobre as suas próprias práticas e maneiras de pensar, mas também sobre os diversos componentes de sua sociedade e sobre seus diferentes meios de pertencimento. – já que ele é considerado “representativo” de seu grupo.
  • Essa é uma concepção positivista do entrevistado;
  • Na perspectiva positivista os informantes seriam semelhantes a câmeras que permitem reconstituir os dados pelo cruzamento de ângulos de vista;
  • Daí a necessidade de precauções técnicas, como a seleção judiciosa dos informantes.

 

Argumento metodológico

A entrevista de tipo qualitativo é eficaz quando se trata de dar conta do ponto de vista dos atores.

A entrevista não dirigida – o entrevistador, depois de ter dado uma instrução inicial, a fim de situar o entrevistado acerca do tema da entrevista, confere-lhe o máximo de liberdade no que diz respeito à maneira de tratar o assunto.

  •  Mesmo não sendo a mais utilizada, é que melhor ilustra os princípios subjacentes à entrevista de tipo qualitativo.
  •  Ela favorece, graças à abertura do método, o fluxo de informações novas, que podem ser determinantes para a compreensão do universo do entrevistado e do objeto pesquisado.
  •  Nenhuma forma de entrevista pode apreender a totalidade de uma experiência, contudo, a entrevista não dirigida permitiria vasculhar mais  fundo a experiência do entrevistado.
  •  Ela visa, com a ajuda das técnicas de formulação, levar a descrever detalhadamente as dimensões abordadas.

A colaboração do entrevistado – o nível de colaboração do entrevistado não é fácil de avaliar e coloca mais globalmente a questão da relação que o pesquisador estabelece com o grupo das pessoas pesquisadas e do efeito que isso pode ter sobre a produção dos dados.

  • Para uma boa entrevista:
  •  Colocar o entrevistado à vontade, por elementos de encenação.
  •  O objetivo é fazer com que o entrevistado esqueça tudo o que possa servir de obstáculo à enunciação de seus discursos;
  •  Proporcionar um ambiente favorável à confidência;
  •  Entre os vários elementos de encenação figura a escolha do momento mais propício à entrevista – o entrevistado e o entrevistador devem se sentir verdadeiramente disponíveis;
  •  Sugere-se a realização da entrevista na casa do entrevistado, em seu local de trabalho ou espaços semipúblicos;
  •  Desorientá-lo o menos possível em relação aos seus hábitos;
  •  Reduzir os efeitos negativos dos instrumentos de registro para que o entrevistado esqueça a presença deles;
  •  No caso do uso de gravadores, fazê-lo com discrição;

Obs: Os elementos de encenação da entrevista não se restringem apenas às questões concernentes ao momento, lugar e técnicas de registro, é preciso levar em conta aspectos como o vestuário, por exemplo, que se deve adaptar às circunstâncias da entrevista, sem exageros.

  •  Mesmo os detalhes mais anódinos podem criar uma distância;
  •  Toda reunião social comporta suas convenções;
  •  Atenuar as diferenças de posição social, em camufla-la;
  •  Usar termos linguísticos que o entrevistado reconheça – falar a “língua dele”;
  •  Demonstrar uma escuta interessada;
  •  Evitar interromper o entrevistado;
  •  Não fazer julgamentos sobre o que ele lhe revela;
  •  Não argumentar com o entrevistado ou contestá-lo.

 

Para ganhar a confiança do entrevistado – desenvolver diferentes estratégias visando convencer o entrevistado das suas boas intenções.

  •  Garantir o anonimato;
  •  Convencê-lo de sua “neutralidade”
  •  Aplacar os receios dos interlocutores – entrevistados – esclarecendo o uso que será feito do material colhido e garantindo o anonimato dos envolvidos;
  •  Às vezes, é preciso dobrar-se às regras de sociabilidade como, por exemplo, aceitar uma bebida ou dispor de tempo para falar de uma coisa ou outra, antes de começar a entrevista;

 

Princípios são associados à uma entrevista de sucesso

  • Tentar levar o entrevistado a tomar iniciativa do relato
  •  Quanto mais o discurso é espontâneo, menos será maculado pelo pesquisador, permitindo assim a aproximação de um discurso verdadeiro.
  •  É preciso respeitar também os momentos de silêncio, de modo que o entrevistado possa encadear as ideias.
  • Favorecer o maior envolvimento possível do entrevistado.

Os tipos de viés:

a) Os vieses ligados aos dispositivos de investigação – elementos de encenação da entrevista;

b) Os vieses ligados à relação entrevistador – entrevistados e a sua respectiva situação social

  • As respostas dos entrevistados poderiam variar consideravelmente segundo as características do entrevistador (independente de sua vontade ou competência técnica, aspectos como idade, sexo, etnia, classe social e outras, influenciam no rumo da entrevista).
  • A percepção que o entrevistador tem da posição social do entrevistado pode influir sobre suas réplicas e, mais globalmente, sobre a natureza de suas interpretações.

 c) Vieses referentes ao contexto da entrevista – repercussões possíveis tanto no discurso do entrevistado quanto nos discursos do entrevistador.

  • Seria preciso inserir o entrevistado em um contesto em que lhe permitisse dizer abertamente o que pensa, tudo o que pensa.
  • Procurar, por diferentes procedimentos, revelar se ele mente, ou se o que diz corresponde à realidade como ela é.

 

Entrevista Padronizada – reprodução do contexto do laboratório em oposição à coleta de discursos “naturais”.

Entrevista padronizada

  • Na entrevista padronizada esforça-se em criar condições aproximadas às características da experiência feita em laboratório.
  • Perguntas e respostas estruturadas previamente, pensava-se, conter a subjetividade do entrevistador
  • Impedir a improvisação e interpretação duvidosas
  • Diminuir o risco de ingerência e deformação
  • Generalização dos resultados

Entrevista qualitativa

  • Os qualitativos buscaram realizar suas entrevistas em situações semelhantes às naturais. Assim, os depoimentos colhidos deveriam se aproximar às falas espontâneas, conversas comuns.
  • Os atores envolvidos, ao tomarem consciência dos interesses do pesquisador, aceitam colaborar espontaneamente.
  • Entrevistas de grupo são apropriadas para entender tipos de interações difíceis de aprender diferentemente.

 

Tanto do lado quantitativo, quanto qualitativo, buscou-se resolver o problema dos vieses na entrevista. Porém, que se tratasse de reproduzir o contexto de laboratório, ou, ao contrário, de obter o discurso mais “natural” possível, as soluções consideradas por uns e outros permanecem de ordem técnica.

Críticas endereçadas à padronização: A crítica mais importante à respeito da padronização concerne, no entanto, na impossibilidade de eliminar o que, na perspectiva positivista, denomina-se “os efeitos do contexto”.

Crítica à entrevista não dirigida: a crítica mais severa à respeito da entrevista não dirigida foi formulada por Kendel (1972). Ela argumenta que essa forma de entrevista não pode conter o jogo dos vários componentes da interação envolvidos na situação de pesquisa, são eles:

  • As intervenções não verbais do entrevistador;
  • Respectivas percepções do entrevistador e do entrevistado em função de suas características sociais, reais ou presumidas.

Observações sobre o texto: Discute-se ainda acerca das relações de pode e a maneira que interferem nos discursos. Neste contexto, o auto sugere que cabe, portanto, reconhecer que os discursos produzidos pela entrevista devem ser analisados tanto sob a luz dos enfoques dados pelos entrevistados, quanto à luz dos enfoques dados pelos pesquisadores.

 

 

patch

Relatório interpretativo produzido para a disciplina Psicologia e Relações Humanas com enfoque na auto observação, tendo como material de apoio as leituras pertinentes, assim como as experiências vividas no contexto acadêmico, correlacionando com cenas e personagens do filme Patch Adams – o amor é contagioso.

A auto- observação é um exercício de extrema importância para a convivência harmoniosa em grupo, pois algumas características pessoais podem se mostrar verdadeiros entraves no que diz respeito à interação com a equipe, enquanto outras podem atrapalhar no quesito confiança.

Caso o indivíduo não se mostre aberto ao diálogo e interessado nas atividades desenvolvidas, participando das ações e auxiliando a equipe, isso pode acarretar em rejeição do grupo em atividades futuras ou mesmo desencadear o comportamento apático da equipe em relação ao sujeito que se mostrou indiferente e desinteressado. E, mesmo que essas características sejam resultado, não propriamente da indiferença e desinteresse do sujeito, mas da timidez e introspecção, certas técnicas devem ser trabalhadas para amenizar os impactos causados por tais atitudes.

Por outro lado, o ambiente em que o grupo está inserido – tanto no que diz respeito ao “clima” entre os participantes, como o ambiente físico mesmo –  desempenha papel fundamental para o bom andamento dos trabalhos. De acordo com Idanez (2004, p.29), algumas condições devem ser observadas para que haja efetividade na solução dos problemas em grupo: 1) Clima grupal favorável; 2) relações interpessoais que favoreçam a comunicação e a confiança, reduzindo a intimidação dos membros do grupo; 3) estabelecimentos de acordos sobre a forma de resolver os problemas; 4) Liberdade para fixar objetivos e tomar decisões; 5) Aprendizagem acerca das formas mais efetivas para a tomada de decisões.

Algumas situações observadas no filme “Patch Adams, o amor é contagioso” (1998) evidenciam tais observações acerca do trabalho em conjunto, já que alguns colegas do personagem principal, Patch Adams, tinham extrema dificuldade no trabalho em grupo – alguns por falta de confiança, outros por arrogância –, no entanto, a convivência com Patch mudou completamente tais características, sua personalidade generosa e sua atitude acessível desenvolveu confiança e admiração aos que estavam a sua volta. E isso os levou a formar uma equipe bastante efetiva na ajuda de pessoas com transtornos psicológicos e outras doenças. Patch Adams contagiou o grupo com seu bom humor e isso possibilitou uma atmosfera de amizade. De acordo com Idanez (2004):

Nos grupos com uma atmosfera calorosa, permissiva, amistosa, democrática, parece haver maior estímulo para trabalhar e maior satisfação, e os indivíduos e o grupo é mais produtivo. Além disso, há menos descontentamento e frustração, menos agressão. Há mais companheirismo, cordialidade, cooperação e “sentimento do nós”. […] o clima de amizade deve ser sincero e autêntico. Deve estar apoiado na profunda convicção do valor de toda pessoa e no respeito honesto aos pontos de vista dos outros.  (p. 33).

No curso de Psicologia há acadêmicos de personalidades semelhantes à do personagem Patch: sempre otimistas, com palavras acolhedoras e acessíveis. Há também alguns que usam de sarcasmo e brincadeiras inapropriadas, para chamar a atenção para si – porque o fato de estar em um curso de psicologia não garante ao sujeito a generosidade e empatia tão necessárias para o desempenho da futura profissão – e há os introspectivos, que se fecham em si mesmos, talvez para sua própria proteção. As aulas de Psicologia e Relações Humanas (PRH) ajudam, com trabalhos específicos de socialização, a decifrar a personalidade de cada um, e com isso elaborar a melhor abordagem. Pois as pessoas sempre dizem do que precisam, basta que se saiba ouvi-las.

Algumas dessas atividades desenvolvidas em sala demonstram a importância do ambiente físico para o bom andamento dos trabalhos. Por exemplo, quando o ar-condicionado está desligado, por algum motivo – alguns professores tem alergia, ou acham que o barulho atrapalha a aula –, e o clima esquenta literalmente, os estudantes ficam impacientes, inquietos e isso desencadeia outros problemas que atrapalham o desenvolvimento dos trabalhos, são eles: desinteresse ao tema abordado e conversas paralelas, que nada acrescentam ao que está em discussão. As cadeiras posicionadas em fila causam entraves às pessoas que ficam atrás (o fundão, como chamam), pois limitam a visibilidade e dificultam ouvir o que está sendo dito na frente. Assim, corre-se o risco de ter a atenção desses indivíduos dispersa pela inadequação do espaço. Sobre isso:

O ambiente físico ou condições materiais nas quais o grupo atua influi positiva ou negativamente na determinação da atmosfera grupal. Esse ambiente é configurado pela iluminação e ventilação, pela disposição das cadeiras e pelo tamanho do local em relação ao número de participantes. (IDANEZ, 2004, p. 31).

Já o clima da turma, no que diz respeito à harmonia nas relações interpessoais, interfere diretamente na resolução dos problemas, pois o clima “pesado” pode causar animosidade entre as pessoas, que se fecham ao diálogo, ou pior, partem para as agressões verbais. A falta de sensibilidade ou clareza de alguns colegas ao abordarem determinados assuntos, que sensibilizam consideravelmente outros colegas, causou o que chamamos de “clima pesado” e a reação foi de defesa e perda de confiança. A distorção da comunicação também pode se dar por efeitos emocionais, ou seja, “quando nos sentimos inseguros, aborrecidos ou receosos, o que ouvimos e vemos parece mais ameaçador do que quando nos sentimos seguros e em paz com o mundo” (Minicucci,1992,p.55).

Moscovici (1997), ressalta a importância de se fazer uma abordagem sensível às necessidades do sujeito observado, quando o objetivo é dar um feedback, mas essa sensibilidade cabe a todos os tipos de abordagens. No filme, o clima pesado e a importância da abordagem sensível se revelavam sempre que os professores flagravam Patch em suas incursões pelo hospital, visitando os doentes, a fim de animá-los com boas risadas.

Para o desenvolvimento de habilidades sociais entre universitários é preciso uma junção de todos os itens citados acima, ou seja: ambiente acolhedor, equipe amistosa, superação de entraves pessoais (timidez, introspecção, autoisolamento, desinteresse etc.), também é necessário o comprometimento do indivíduo em colaborar e garantir o desenvolvimento positivo do grupo em que está inserido. Os autores aqui referenciados diriam ainda que é indispensável certo nível de parceria, confiança e objetivos em comum. E como afirma Barreto (2003, p. 89), “embora caiba ao professor a maior parte da responsabilidade quanto ao relacionamento com os estudantes, as interações humanas são bidirecionais”, o que acarreta responsabilidade também ao estudante em relação ao professor e colegas.

Neste contexto, o feedback é uma ferramenta indispensável ao sujeito que deseja melhorar as relações interpessoais com seus pares, pois contribui para o aperfeiçoamento das inclusões, abordagens e interações em grupo. Todos nós precisamos saber nossos pontos fortes, para potencializá-los, e os fracos, para corrigi-los.

Ainda mais nas relações interpessoais, o feedback com os elementos emocionais pode ser de grande ajuda na resolução de certos problemas. Quando se diz, por exemplo: Aquela sua atitude fez-me sentir em situação desagradável, tal observação pode esclarecer algumas coisas para ambos, sem com isso invalidar as razões do outro, mas indicar “como a ação repercutiu em nós” (MOSCOVICI, 1997).

A importância da universidade na formação dos jovens deve ser levada em consideração, mas também há grande valor no esforço desse jovem acerca da sua construção pessoal. Patch Adams ilustra muito bem esse ponto de vista durante sua trajetória pessoal e acadêmica.

No mundo em que a revolução tecnológica afasta as pessoas fisicamente; em que todos querem falar e poucos sabem ouvir; em que há abundância de conteúdos disponíveis e escassez de calor humano, talvez seja necessário fazer uma pausa, respirar calmamente, olhar quem está a nossa volta e realmente vê-lo (a). É por essa atenção e evidência que a maioria das pessoas anseia, é sobre esse conteúdo que pesquisamos nas redes sociais, queremos saber o que fazem para chamar a atenção, ou para sentirem-se bem. Mas também queremos ser vistos e ouvidos, precisamos nos sentir importantes.

Então, para o sucesso nas relações interpessoais torna-se imperativo ser mais como Patch Adams e menos como as pessoas que o suprimiam e desacreditavam, assim como essas pessoas que nos subestimam ainda hoje, na vida real. Sejamos menos emissores de conteúdos irrelevantes, vamos transmitir o que realmente importa para o nosso receptor, agregar valor às relações sociais.

E se trocássemos a mensagem no WhatsApp por um aperto de mão, os emotions de coraçãozinho por beijos e abraços de verdade e os elogios via Facebook e Instagram pelo velho e bom “olhos nos olhos”? Para isso não é preciso abrir mão das redes sociais ou de qualquer tecnologia, basta apenas estar presente quando se está com o outro. Vê-lo com olhos compreensivos e ouvi-lo com ouvidos receptivos. Isso garante o sucesso de qualquer relação em grupos grandes ou pequenos, dentro e fora das universidades.

 

REFERÊNCIAS

  1. BARRETO, Maria. Dinâmica de grupo: história, prática e vivências. São Paulo: Alínea, 2003.
  2. IDANEZ, Maria José Aguilar. Como animar um grupo. Petrópolis: Vozes, 2004.
  3. MINICUCCI, Agostinho. Relações Humanas: Psicologia das relações interpessoais. São Paulo: Atlas, 1992.
  4. MOSCOVICI, Fela. Desenvolvimento Interpessoal, Treinamento em Grupo. José Olympio Editora S.A., RJ, Brasil – 1997.
  5. Filme: Patch Adams: O amor é contagioso. Ano: 1998. Direção: Tom Shadyac

CORDEIRO, Mariana Prioli. Universidade de São Paulo, 2013, 33 (3) 716 – 729.

Esquema de estudos

 

  • Duas versões dessa disciplina: uma anterior e outra posterior à crise de referência que atingiu essa área do conhecimento na década de 70.
  • a primeira era marcada pela hegemonia da Psicologia social norte-americana, tinha uma base positivista e Aroldo Rodrigues era seu principal representante brasileiro.
  • A segunda caracterizava-se por fazer uma severa crítica ao modelo biologicista e, principalmente, por defender uma ciência comprometida com a transformação social.
  • A realidade não é um fato externo, objetivo e sujeito à interpretação cultural da ciência. Pelo contrário, é algo construído e reconstruído ativamente.
  • Só podemos falar do real ao nos referirmos a uma multiplicidade de materiais heterogêneos conectados em forma de uma rede que tem múltiplas entradas, está sempre em movimento e aberta a novos elementos que podem se associar de forma inédita e inesperada. Todos os fenômenos são efeitos dessas redes que mesclam simetricamente pessoas e objetos, dados da natureza e dados da sociedade, oferecendo lhes igual tratamento.
  • Significa considerar que qualquer coisa – pessoa ou objeto – cuja incidência modifique um estado de coisas seja um ato, não estabelecendo, a priori o que é social, natural ou tecnológico.
  • Que nenhuma ciência do social pode existir se não explorar, primeiramente, a questão do que e de quem participa da ação – ainda que isso signifique permitir que se incorporem elementos não humanos à resposta.
  • A guerra e o autoritarismo levaram ao enfraquecimento da fé na igualdade de oportunidades e ao esgotamento das garantias de coesão social pelo simples crescimento econômico, fazendo com que instituições – como a escola, a prisão e a fábrica – fossem questionadas, favorecendo, com isso, o fortalecimento das correntes neomarxistas.
  • Nesse mesmo período, a eficácia da Psicologia social norte americana começou a ser problematizada pelos europeus.
  • Na França – por ser “uma ciência ideológica, reprodutora dos interesses da classe dominante, e produto de condições históricas específicas”
  • Na Inglaterra – crítica ao positivismo, que, em nome da objetividade, (perdia) o ser humano.
  • Essa crise de referência começou a fortalecer-se no Brasil e em outros países da América Latina com uma década de atraso. Os principais motivos de insatisfação foram:
  • A dependência teórico-metodológica, principalmente dos Estados Unidos;
  • A descontextualização dos temas abordados;
  • A superficialidade e a simplificação das análises desses temas;
  • A individualização do social e a ausência de preocupação política.
  • Sílvia Lane, fundadora da escola socio-histórica da PUC-SP, é apontada como principal opositora ao positivismo – corrente norte americana – defendida por  Aroldo Rodrigues.
  • A Psicologia social de Aroldo Rodrigues (1972):
  • Estudo científico do processo de interação humana;
  • É uma ciência básica cuja única forma de intervenção é indireta: ela fornece dados objetivos para que tecnólogos sociais possam resolver problemas sociais.
  • Estudar um determinado fato a partir do método científico significa orientar-se pelo seguinte esquema:
  • Parte – se de uma teoria para levantar hipóteses.
  • Testam-se as hipóteses levantadas;
  • Analisam-se os dados colhidos.
  • Por fim, confirmam-se ou rejeitam-se as hipóteses iniciais.
  • Esse esquema deve ser marcado pela neutralidade do (a) psicólogo (a) social em sua procura pelas relações não aleatórias entre variáveis.
  • Apesar de Rodrigues admitir que a escolha do tema e o relatório do cientista podem não ser neutros, para ele, “o produto final, isto é, o conhecimento novo que surge, esse é inexoravelmente neutro, pois toda a comunidade científica o fiscaliza”.
  • Segundo Rodrigues (1989), a ênfase na práxis e no compromisso social do (a) pesquisador (a) foi o principal desencadeador da crise que atingiu a Psicologia social em meados da década de 70.
  • Essa crise só ocorreu devido à ignorância da distinção entre ciência e tecnologia.
  • Assim como fisiólogos não curam doentes, ou físicos não constroem pontes e casas, psicólogos sociais não são os responsáveis por mudar a realidade social, mas sim por produzir conhecimento.
  • A resolução de problemas concretos são tarefas dos tecnólogos sociais.
  • Sílvia Lane:
  • Critica a defesa da neutralidade da ciência e da objetividade dos fatos.
  • Resgata a subjetividade, e não vê o indivíduo como produto de si mesmo.
  • “Se o homem não for visto como produto e produtor, não só de sua história pessoal, mas também da história de sua sociedade, a Psicologia estará apenas reproduzindo as condições necessárias para impedir a emergência das contradições e a transformação social” (Lane, 2001, p. 15).
  • Uma atuação mais consequente da Psicologia, na qual teoria e prática devem andar sempre juntas.
  • Considerar a Psicologia social como práxis significa abrir mão da busca pela neutralidade científica.
  • Tanto o pesquisador quanto o pesquisado são, ao mesmo tempo, produtos e agentes histórico-culturais:
  • Definem-se por meio de relações sociais que tanto podem reproduzir as condições sociais em que ambos estão inseridos quanto podem transformá-las.
  • Conclusões:
  • Ao contrário do que afirmam alguns autores, a crise de referência não representou um divisor de águas propriamente dito – afinal, ela não eliminou por completo a Psicologia social norte-americana e a substituiu por uma ciência dita politicamente comprometida.
  • A despeito de ocorrerem em locais distintos e de possuírem diferentes objetivos e modos de intervir, as diferentes versões da Psicologia social são chamadas da mesma maneira, são todas chamadas de Psicologia social:
  • Esse rótulo funciona como uma espécie de ponte que une diferentes espaços e práticas:
  • Cria semelhanças;
  • Articula as realidades de um objeto múltiplo.
  • Todos os cursos de graduação em Psicologia do País possuem ao menos uma disciplina voltada para a Psicologia social.
  • Coexiste a ciência básica – que faz uso de laboratórios, experimentos e escalas para estudar o comportamento interpessoal – com a ciência politicamente comprometida e preocupada em entender como o ser humano se torna agente da História.
  • Para contar a história da Psicologia social brasileira, não basta falar de personagens e de fatos, mas é preciso, também, falar de práticas, objetos, instrumentos… Atores humanos e não humanos.
  • Ao admitirmos que, em um campo do conhecimento, coexistem diferentes teorias, metodologias e objetos de estudo, nós admitimos ser complexa a realidade.

 

 

metodo

Texto com base nesta obra

As regras servem para tentar resolver problemas, são gerais e não são infalíveis. Por fim, elas não substituem a intuição, nem a imaginação do cientista. Alguns filósofos afirmam que há sempre um método para melhor testar e selecionar as hipóteses mais funcionais. O método científico é definido como aquele que procura resolver os problemas da pesquisa por meio de suposições. Essas suposições são as hipóteses que contém previsões sobre o que deverá acontecer sob determinadas condições. A hipótese científica deve ser testada através de experiências e observações, ela será aceita caso os testes obtenham os resultados previstos por ela. Vale ressaltar que essa aceitação é provisória e se sustenta até que a hipótese seja refutada por novos testes. Para testar a hipótese é preciso a verificação experimental, que consiste em observação e coleta de dados que são selecionados de acordo com os critérios de interesse para a pesquisa.

Os teóricos do século XlX buscavam responder a certos tipos de questões como:

  • O que é a natureza humana?
  • Por que a sociedade é estruturada da forma que é?
  • Como e por que as sociedades mudam?

E essas são as mesmas questões que os sociólogos buscam responder hoje em dia.

AUGUSTO COMTE – filósofo francês (1798 – 1857)Comte

Inventou a palavra Sociologia; Comte buscou criar uma ciência da sociedade que pudesse explicar as leis do mundo social da mesma forma que a ciência natural explicava o funcionamento do mundo físico. Ele acreditava que “desvendar as leis que governam a sociedade humana poderia nos ajudar a modelar nosso destino e a melhorar o bem estar da humanidade”.

Comte afirmava que a sociedade se conforma com leis invariáveis
, da mesma forma que o mundo físico. O positivismo de Comte sustenta que a ciência deveria se preocupar somente com entidades observáveis, que são conhecidas diretamente pela experiência.

Uma abordagem positivista da sociologia acredita na produção de conhecimento sobre a sociedade baseada em evidências empíricas, tiradas à partir da observação, da comparação e da experimentação.

Comte criou a lei dos três estágios, que se baseia na premissa de que os esforços humanos para entender o mundo passaram por três estágios: teológico, metafísico e positivo. Assim, na parte mais tardia de sua carreira, Comte propôs uma religião da humanidade, que abandonaria a fé e o dogma em favor de um fundamento científico. A Sociologia estava no centro dessa nova religião. (pág. 28).

ÉMILE DURKHEIM – autor francês (1858 – 1917)durkheim

Esse filósofo via a Sociologia como uma nova ciência que poderia elucidar questões filosóficas tradicionais ao examiná-las de uma maneira empírica.

Para Durkheim, o primeiro princípio da Sociologia era estudar os fatos sociais como coisas e, com isso, queria dizer que a vida social poderia ser analisada tão rigorosamente quanto os objetos ou os eventos da natureza. Três dos principais temas estudados por ele são:

  • A importância da Sociologia como uma ciência empírica;
  • A ascensão do indivíduo e a formação de uma nova ordem social;
  • As fontes e o caráter da autoridade moral na sociedade.

De acordo com Durkheim, os fatos sociais são meios de agir, pensar ou sentir, que são externos dos indivíduos e têm sua própria realidade fora das vidas e das percepções das pessoas individuais. Ou seja, os fatos sociais exercem um poder coercitivo sobre os indivíduos., pois, as pessoas, com frequência, seguem padrões que são gerais à sua sociedade.

Os fatos sociais podem forçar a ação humana numa diversidade de maneiras, indo da punição absoluta – no caso de um crime – à rejeição social – caso de comportamento inaceitável – e a simples incompreensão, como no caso de uso inapropriado da língua.

Durkheim acreditava que a solidariedade mantinha a sociedade unida, assim construiu o argumento de que “o advento da era industrial significava um novo tipo de solidariedade”. E assim, contrastou dois tipos de solidariedade, mecânica e orgânica, e as relacionou com a divisão do trabalho e com o crescimento de distinções entre diferentes ocupações:

  • Mecânica: caracterizada pelas culturas tradicionais com baixa divisão do trabalho. Solidariedade por semelhança, indivíduos diferem pouco. A comunidade pune qualquer um que desafie os modos de vida convencional, assim há pouco espaço para divergência individual. Ex: clãs, tribos.
  • Orgânica: O consenso, a unidade, resulta da diferenciação. Indivíduos não se assemelham. Ex: sociedades industriais.

A anomia, para Durkheim, é a ausência de normas de solidariedade, como uma doença social, crise.

KARL MARX (1818 – 1883) 

 Dialética materialista;

Materialismo histórico.

Objeto de estudo: Capitalismo

Conceitos:

1 – Realidade:  é a mais ampla e incorpora o futuro.

2 – Produção: motor da sociedade; pressuposto histórico.

3 – Meios de produção: Tema; fábrica.

4 – Bens de consumo: produzido por um meio de produção.

5 – Capital: fonte, riqueza.

6 – Forças produtivas: capital + trabalho.

7 – Relações de produção: relação de propriedade

8 – Classe social: Só existem duas – a) detém a propriedade; b) não detém a propriedade.

9 – Infraestrutura: relações econômicas; bases materiais; relações entre forças produtivas e relações de produção, ou seja, capital+trabalho.

10 – Superestrutura: instituições jurídicas; políticas; ideológicas; plano simbólico da cultura; plano do espírito, da consciência, das ideias.

11 – Alienação: “tornar-se estranho a si mesmo” ; “não se reconhece nas suas obras”.

12 – Ideologia: falsidade; ideias erradas, distorcidas.

13 – Mercadoria: tem valor de uso – trabalho necessário, trabalho pago. Valor de troca – excedente, trabalho não pago.

14 – Mais valia: apropriação do trabalho não pago; prolonga a duração do trabalho, reduz o trabalho necessário

A maior parte do seu trabalho se concentrou em temas econômicos, mas, como estava sempre preocupado em conectar problemas econômicos a instituições sociais, seu trabalho é rico em percepções sociológicas.

Para Marx, as mudanças mais importantes estavam estreitamente ligadas ao desenvolvimento do capitalismo. Ele acreditava que, quem detém o capital – os capitalistas – formam a classe dominante, enquanto quem não o detém – a massa de trabalhadores – formam a classe operária.  Assim, para Marx, o capitalismo é inerente ao sistema de classes, no qual as relações de classe são caracterizadas pelo conflito.

Este filósofo defendia a ideia de que a relação entre as classes era de exploração, uma vez que os trabalhadores têm pouco ou nenhum controle sobre o seu trabalho e os empregadores são capazes de gerar lucro ao se apropriar do produto do trabalho dos operários.

Sobre Mudança Social: concepção materialista da história

“Não são as ideias e valores que os seres humanos guardam que são as principais fontes da mudança social.” (crítica à Hegel)

De acordo com Marx, a mudança social é estimulada, primeiramente, por mudanças econômicas. “Da mesma forma que os capitalistas tinham se unido para depor a ordem feudal, esses também seriam suplantados e uma nova ordem seria instalada”. Ele acreditava que na sociedade do futuro a produção seria mais avançada e eficiente do que a produção sob o capitalismo.

MAX WEBER – ALEMÃO (1864 – 1920)

Este filósofo rejeitou a concepção materialista da história e viu menos relevância no conflito de classes do que Karl Marx. O contexto histórico da Alemanha era diferente do francês e do inglês, assim, o pensamento alemão se volta à diversidade, enquanto os pensamentos inglês e francês se voltam para a universalidade.

Sociologia de Weber: Compreensiva e tipológica. Preocupava-se com o particular, o específico, o diferente. O autor fez críticas ao positivismo no que se refere a:

  • Ideia de evolução e progresso;
  • Busca de leis;
  • Indivíduo submetido ao coletivo;
  • Questão da objetividade.

Max Weber também criticou o Marxismo:

  • Ideia de evolução;
  • Visão determinista;
  • Econômico determinante;
  • Economia política – juízo de valor.

O método compreensivo de Weber: é o esforço interpretativo, preocupação com o particular e não com o geral. Seu objeto de investigação é a Ação social, ou seja, a conduta humana dotada de sentido; de uma justificativa subjetivamente elaborada. Dessa forma, o indivíduo, que não existia para Marx ou era passivo no processo de Durkheim, passa a ter significado. É ele que dá sentido à ação social. Esse sentido é construído na relação social.

Para lembrar: a preocupação com a subjetividade é uma perspectiva interpretativa. De acordo com Weber, os indivíduos tem a habilidade de agir livremente e de moldar o futuro.

Assim, o autor concluiu que certos aspectos das crenças cristãs influenciaram fortemente o surgimento do capitalismo. Em sua concepção, ideia e valores culturais ajudam a modelar a sociedade e modelam nossas ações individuais.

Max Weber construiu o “tipo ideal”, ou “tipos puros” como recurso para descrição da realidade empírica. São modelos conceituais que podem ser usados para compreender o mundo. Ou seja, trata-se de uma construção analítica, não existe na realidade.

O autor descreve 4 tipos puros de ação social:

  • Tradicional
  • Afetiva ou emocional;
  • Racional orientado para fins – lucro;
  • Racional orientado para valores.